Aprender a perder também faz parte de crescer: o que a frustração ensina sobre a infância

12.out.2026

Criança demonstrando frustração durante um jogo de tabuleiro, em uma situação de aprendizado sobre ganhar e perder.

Aprender a perder também faz parte de crescer: o que a frustração ensina sobre a infância

Existe uma descoberta que nenhuma criança faz sem algum desconforto: perceber que nem sempre será a melhor, a primeira ou a escolhida.

Durante os primeiros anos de vida, a criança constrói gradualmente uma imagem de si mesma. Descobre suas capacidades, experimenta o reconhecimento dos outros e começa a perceber que seus desejos encontram limites.

Nesse processo, perder uma brincadeira pode parecer uma experiência pequena para os adultos, mas representa uma oportunidade importante de entrar em contato com algo que acompanha toda a vida: a diferença entre aquilo que desejamos e aquilo que realmente acontece.

A questão não é apenas aprender a aceitar uma derrota. É construir recursos emocionais para continuar se sentindo capaz e valorizada mesmo quando o resultado não corresponde ao esperado.

A descoberta de que não podemos ter tudo

Nos primeiros anos de vida, a criança ainda está construindo sua capacidade de lidar com as limitações impostas pela realidade.

Ela deseja, espera, imagina e, muitas vezes, acredita que aquilo que quer deveria acontecer imediatamente.

Aos poucos, descobre que existem vontades diferentes das suas. Que os outros também desejam, escolhem e ocupam lugares. Que algumas situações podem ser modificadas, enquanto outras precisam ser aceitas.

Na psicanálise, a experiência da frustração ocupa um lugar importante na constituição emocional.

É por meio do encontro gradual com os limites da realidade, dentro de relações que ofereçam segurança, que a criança pode desenvolver recursos para lidar com a espera, a ausência e a impossibilidade de realizar todos os seus desejos.

Isso não significa que quanto mais frustrações uma criança enfrentar, melhor será seu desenvolvimento.

A maneira como essas experiências acontecem, sua intensidade e a presença de adultos capazes de oferecer sustentação emocional fazem diferença.

Uma frustração que pode ser vivida e elaborada é diferente de uma experiência que deixa a criança emocionalmente desamparada.

O que uma derrota pode representar?

Para compreender por que algumas crianças sofrem tanto quando perdem, precisamos considerar como elas estão construindo a percepção de si mesmas.

Na infância, a imagem que a criança possui de suas próprias capacidades ainda está em formação.

O reconhecimento dos pais, professores e outras pessoas importantes participa desse processo. Assim como as experiências de sucesso, as dificuldades e as comparações que surgem naturalmente na convivência.

Ganhar uma partida pode trazer alegria, orgulho e a sensação de ser capaz.

Perder, por outro lado, pode despertar sentimentos de decepção, vergonha, raiva ou inferioridade.

Para algumas crianças, essas emoções permanecem relacionadas à situação: perderam uma partida, ficaram tristes e, depois de algum tempo, conseguem brincar novamente.

Para outras, a experiência pode atingir algo mais sensível.

Uma derrota pode ser vivida como se colocasse em dúvida seu próprio valor.

A diferença entre pensar “eu perdi” e sentir “eu não sou bom o suficiente” é significativa.

Quando a criança ainda encontra dificuldade para separar seu valor pessoal dos resultados que alcança, situações competitivas podem se tornar emocionalmente exigentes.

O lugar do outro nas experiências infantis

Aprender a perder também envolve descobrir que o outro possui desejos, capacidades e conquistas próprias.

Essa percepção nem sempre é simples.

Uma criança pode admirar um amigo que corre mais rápido e, ao mesmo tempo, sentir inveja de sua habilidade.

Pode gostar muito de um irmão e ficar irritada quando ele recebe um elogio.

Pode desejar participar de uma brincadeira, mas se sentir desconfortável ao perceber que alguém consegue realizar determinada tarefa com mais facilidade.

A convivência com essas diferenças mobiliza sentimentos que fazem parte do desenvolvimento emocional.

Na perspectiva psicanalítica, amor, rivalidade, admiração, ciúme e agressividade não são experiências necessariamente incompatíveis.

Sentimentos contraditórios podem coexistir nas relações, inclusive naquelas marcadas por afeto.

A criança pode gostar de alguém e, em determinados momentos, desejar superá-lo.

Reconhecer essa complexidade ajuda a compreender que sentir inveja ou raiva não transforma uma criança em alguém ruim.

O importante é que, ao longo do desenvolvimento, ela encontre possibilidades de reconhecer esses sentimentos e expressá-los sem precisar atacar o outro ou destruir a relação.

Quando a competição deixa de ser uma brincadeira

Existe uma diferença entre gostar de ganhar e precisar ganhar.

Uma criança pode ser competitiva, sentir prazer nas conquistas e se dedicar intensamente a uma atividade sem que isso represente uma dificuldade emocional.

Entretanto, quando vencer se torna a única maneira de participar, a brincadeira pode perder parte de sua função.

Algumas crianças abandonam jogos assim que percebem que estão perdendo. Outras tentam modificar as regras, recusam atividades novas ou demonstram grande sofrimento diante da possibilidade de errar.

Nessas situações, vale observar o espaço que a experiência de falhar ocupa em sua vida.

Se a criança precisa ter certeza de que será bem-sucedida antes de tentar, talvez a possibilidade de não conseguir esteja associada a sentimentos difíceis de suportar.

A necessidade de vencer pode funcionar, em determinados momentos, como uma tentativa de proteger uma imagem de si mesma que ainda parece vulnerável.

Isso não significa que exista uma explicação única para esses comportamentos.

A idade, a história da criança, suas relações, as expectativas que percebe ao redor e as experiências anteriores precisam ser consideradas.

O brincar não precisa ser uma prova

Em muitas famílias, surge uma dúvida: devemos deixar a criança ganhar?

Não existe uma resposta que sirva igualmente para todas as idades e situações.

Com crianças pequenas, adaptar as regras e a dificuldade de uma brincadeira pode favorecer a participação e tornar a experiência mais prazerosa.

O problema aparece quando toda atividade precisa ser organizada para evitar qualquer possibilidade de frustração.

Se a criança nunca encontra situações em que precisa esperar, negociar ou aceitar um resultado diferente do desejado, pode ter menos oportunidades de desenvolver recursos para lidar com essas experiências.

Por outro lado, provocar derrotas repetidas com a intenção de ensinar que a vida é difícil também não favorece necessariamente o amadurecimento.

O brincar possui um valor que vai muito além de ensinar a ganhar ou perder.

Na psicanálise infantil, ele é compreendido como uma importante forma de expressão e elaboração emocional.

Ao brincar, a criança experimenta papéis, cria possibilidades, representa situações e encontra maneiras de lidar com experiências que ainda não consegue organizar completamente através das palavras.

Uma brincadeira pode permitir que ela experimente uma derrota sem que isso se transforme em uma ameaça ao vínculo com o outro.

Pode perder, sentir raiva, tentar novamente, inventar uma nova estratégia ou simplesmente decidir descansar.

O resultado importa, mas não precisa ser a única coisa que importa.

A presença dos adultos diante da frustração

Quando uma criança perde e reage com intensidade, os adultos podem sentir necessidade de corrigir imediatamente seu comportamento.

É compreensível querer ensinar que não se deve gritar, agredir ou desrespeitar os outros.

Esses limites são necessários.

Mas existe uma diferença entre estabelecer limites para o comportamento e exigir que a criança deixe de sentir aquilo que está sentindo.

A raiva não desaparece simplesmente porque alguém explica que perder faz parte da vida.

Da mesma forma, a tristeza não deixa de existir porque o adulto considera a situação pouco importante.

Uma criança que ainda está tomada pela emoção pode não conseguir compreender, naquele instante, uma explicação sobre regras, respeito ou espírito esportivo.

Em alguns momentos, a presença tranquila do adulto e o reconhecimento da decepção podem ajudá-la a recuperar as condições emocionais necessárias para conversar sobre o que aconteceu.

Isso não significa concordar com atitudes agressivas ou permitir que a criança determine as regras de todas as brincadeiras.

Significa compreender que o aprendizado emocional não acontece apenas por meio de explicações.

Ele também se constrói na experiência de ser acompanhada enquanto enfrenta algo difícil.

O valor da criança não está no resultado

As crianças percebem como os adultos reagem às suas conquistas e dificuldades.

Um elogio, uma expressão de orgulho, uma comparação entre irmãos ou a expectativa de um bom desempenho podem adquirir significados importantes para elas.

Isso não significa que os pais devam deixar de valorizar conquistas.

Ser reconhecida por algo que conseguiu realizar pode ser uma experiência muito positiva.

Entretanto, quando a criança sente que precisa acertar ou vencer para receber admiração, o fracasso pode ganhar um peso emocional maior.

Ela pode começar a evitar situações em que não tenha certeza do resultado.

Pode desistir de atividades novas, esconder erros ou demonstrar sofrimento intenso diante de pequenas dificuldades.

Por isso, é importante que as experiências de reconhecimento não estejam restritas aos momentos de sucesso.

A criança também precisa descobrir que pode tentar e não conseguir, que pode apresentar dificuldades e continuar sendo valorizada.

A segurança emocional não elimina o desejo de vencer. Ela permite que a derrota deixe de representar uma ameaça tão grande à maneira como a criança se percebe.

Quando a dificuldade de perder merece atenção?

Sentir tristeza, raiva ou decepção depois de uma derrota faz parte da experiência humana.

Na infância, essas reações podem ser mais intensas porque os recursos para reconhecer e regular emoções ainda estão em desenvolvimento.

O sofrimento merece atenção quando começa a limitar as experiências da criança.

Isso pode acontecer quando ela evita sistematicamente atividades por medo de falhar, deixa de brincar com outras crianças, apresenta reações muito intensas e frequentes ou passa a associar suas dificuldades a uma sensação persistente de incapacidade.

Nessas situações, o acompanhamento psicológico infantil pode ajudar a compreender o significado que as experiências de perda, erro e competição assumem em sua história.

Na psicoterapia de orientação psicanalítica, não se trata simplesmente de ensinar a criança a aceitar derrotas sem reclamar.

O trabalho busca oferecer um espaço em que seus sentimentos, conflitos e fantasias possam encontrar formas de expressão e elaboração.

Através do brincar, da fala e da relação terapêutica, torna-se possível compreender como ela está vivendo suas dificuldades e o que pode estar tornando determinadas experiências tão dolorosas.

Aprender a perder é também aprender sobre si

O amadurecimento emocional não acontece quando a criança deixa de sentir tristeza ao perder.

Acontece gradualmente, à medida que ela descobre que pode sentir decepção sem ser dominada por ela, reconhecer as capacidades dos outros sem desvalorizar as próprias e enfrentar dificuldades sem abandonar imediatamente aquilo que deseja.

Essa construção exige tempo.

Algumas experiências serão vividas com tranquilidade. Outras despertarão sentimentos intensos e precisarão ser retomadas muitas vezes.

Não existe uma infância sem frustrações, assim como não existe desenvolvimento emocional construído apenas por meio de vitórias.

Ganhar pode fortalecer a confiança. Perder pode ampliar o conhecimento sobre os próprios limites.

Mas talvez uma das descobertas mais importantes aconteça quando a criança percebe que nenhuma dessas experiências define, sozinha, quem ela é.

Porque aprender a perder não é aprender a gostar da derrota.

É descobrir que uma derrota não diminui seu valor e que ainda existem muitas possibilidades depois que uma partida termina.


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