1.fev.2026

Quando a Tela Ocupa o Lugar da Relação: Uso Excessivo de Celular em Crianças Menores de 10 Anos
O uso de telas por crianças pequenas já não é uma novidade. Celulares, tablets e televisões fazem parte do cotidiano familiar e, em muitos lares, estão presentes desde os primeiros anos de vida. A discussão, no entanto, costuma ficar restrita a um eixo simplificado: tempo de uso e excesso. Embora esse seja um aspecto relevante, ele não dá conta da complexidade do que está em jogo quando uma criança passa muitas horas diante das telas.
Na clínica, o que se observa não é apenas uma criança “que usa demais o celular”, mas uma criança cuja relação com o mundo, com o corpo e com o outro está sendo mediada de forma predominante por um objeto que oferece estímulo constante, respostas rápidas e pouca exigência de elaboração psíquica.
Do ponto de vista psicanalítico, a questão central não é a tela em si, mas o lugar que ela ocupa na economia psíquica da criança.
A tela como organizadora do psiquismo infantil
Nos primeiros anos de vida, a criança constrói sua experiência psíquica a partir da relação com o outro. É no vínculo, na troca de olhares, na espera, na frustração e na presença simbólica do adulto que o psiquismo se estrutura. A criança aprende, pouco a pouco, a lidar com a ausência, com o desejo e com os limites.
Quando o uso de telas se torna frequente e precoce, observa-se, em muitos casos, uma substituição silenciosa desse processo. A tela passa a funcionar como um objeto que preenche rapidamente qualquer espaço de vazio, oferecendo estímulo imediato e contínuo. Diferentemente da relação humana, ela não frustra, não se ausenta, não exige negociação simbólica.
Na clínica psicanalítica, isso pode ser compreendido como uma dificuldade na constituição da capacidade de esperar, desejar e simbolizar.
Sintomas que não aparecem apenas como “problemas de comportamento”
Crianças menores de 10 anos raramente verbalizam que algo não vai bem em sua relação com as telas. O sofrimento, quando existe, aparece de outras formas — muitas vezes confundidas com dificuldades escolares ou “fases da infância”.
Desatenção persistente
Não se trata apenas de dificuldade de concentração em tarefas escolares, mas de uma incapacidade de sustentar o interesse em atividades que exigem continuidade psíquica, como brincar livremente, ouvir uma história ou permanecer em uma conversa. A criança parece precisar de estímulos rápidos e intensos para se manter engajada.
Do ponto de vista psicanalítico, isso pode indicar uma fragilidade na capacidade de investimento libidinal contínuo, já que a tela oferece estímulos fragmentados, rápidos e constantemente renovados.
Ansiedade e irritabilidade
Em muitos casos, a retirada da tela provoca reações intensas: irritação, choro, agitação corporal ou fechamento. Essas reações não devem ser vistas apenas como “birra”, mas como sinais de que a tela passou a funcionar como um regulador emocional.
Quando o objeto é retirado, a criança se vê diante de um excesso de excitação que ainda não consegue elaborar sozinha.
Alterações no apetite e no sono
É comum que crianças muito expostas às telas apresentem dificuldade em reconhecer sinais corporais básicos, como fome e cansaço. A excitação constante pode interferir no ritmo biológico, levando a quadros de inapetência, seletividade alimentar ou dificuldade para adormecer.
Na perspectiva psicanalítica, o corpo não é apenas biológico, mas também simbólico. Quando a criança perde a conexão com seus ritmos internos, algo da escuta do próprio corpo se enfraquece.
O excesso de telas e a dificuldade de simbolização
Brincar é uma das principais formas de elaboração psíquica na infância. No brincar simbólico, a criança representa conflitos, desejos, medos e experiências que ainda não consegue colocar em palavras.
O uso excessivo de telas pode reduzir significativamente o espaço do brincar espontâneo. Diferentemente do brinquedo simbólico, a tela entrega imagens prontas, narrativas fechadas e respostas rápidas. Há pouco espaço para a criação, para o vazio e para a invenção.
Na clínica, isso pode aparecer como uma criança que brinca pouco, repete roteiros rígidos ou demonstra dificuldade em sustentar jogos simbólicos mais complexos.
Dados e observações clínicas: para além do “faz mal”
Estudos recentes em neurodesenvolvimento e saúde mental infantil apontam correlações entre uso excessivo de telas e aumento de sintomas de ansiedade, dificuldades de autorregulação emocional e alterações no desenvolvimento da atenção. No entanto, a psicanálise contribui ao ir além da causalidade direta.
O que se observa não é apenas que a tela “provoca” sintomas, mas que ela responde a uma organização psíquica específica, muitas vezes relacionada à dificuldade do ambiente em sustentar presença, limites e escuta.
Em outras palavras, a tela não é apenas um problema — ela também pode ser um sintoma de algo que já está em funcionamento na dinâmica familiar.
O lugar do adulto: presença, limite e escuta
Do ponto de vista psicanalítico, o fundamental não é eliminar as telas, mas recolocá-las em um lugar possível, onde não substituam o vínculo, o brincar e a experiência relacional.
Isso exige do adulto mais do que controle de tempo. Exige presença psíquica, capacidade de sustentar frustrações e disposição para escutar o que a criança expressa — inclusive quando isso aparece como agitação, silêncio ou resistência.
Quando a psicoterapia infantil pode ajudar
Quando os sintomas se intensificam ou se mantêm ao longo do tempo, a psicoterapia infantil pode oferecer um espaço privilegiado de elaboração. No setting terapêutico, a criança encontra a possibilidade de brincar, simbolizar e construir sentidos para aquilo que ainda não consegue dizer.
A clínica psicanalítica não busca demonizar a tecnologia, mas compreender como a criança está se organizando psiquicamente diante dela. O trabalho consiste em devolver à criança recursos simbólicos para que a tela deixe de ocupar um lugar central na regulação emocional.
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