Quando a Criança Não Consegue Explicar o Que Sente: O Que os Pais Precisam Compreender

1.jan.2026

Objeto infantil em um ambiente doméstico, representando sentimentos e emoções da infância que ainda não conseguem ser expressos em palavras

É comum que pais de crianças pequenas se sintam angustiados ao perceber mudanças de comportamento nos filhos, como crises de choro sem motivo aparente, agressividade repentina, dificuldades para dormir ou regressões inesperadas. Muitas vezes surge a pergunta: “O que está acontecendo se está tudo aparentemente bem?”Do ponto de vista da psicanálise, a criança pequena ainda não dispõe de recursos psíquicos suficientes para explicar o que sente em palavras. Ela fala por meio do comportamento. Entender isso é fundamental para que os pais consigam acolher, e não apenas corrigir, aquilo que a criança expressa.

A criança pequena sente antes de simbolizar

Entre os 3 e 6 anos, a criança está em intenso processo de construção psíquica. Suas emoções são vividas de forma intensa, mas ainda pouco organizadas internamente. Diferente do adulto, ela não consegue dizer que está ansiosa ou insegura.

Na psicanálise, compreende-se que, nessa fase, o corpo e o comportamento funcionam como meios privilegiados de expressão. Por isso, manifestações como birras frequentes, medos excessivos, dificuldade de separação, alterações no sono, agressividade ou retraimento não devem ser vistas apenas como problemas de comportamento, mas como sinais de algo que precisa ser escutado emocionalmente.

O comportamento como forma de comunicação

Um ponto central da clínica psicanalítica infantil é entender que o sintoma não surge do nada. Ele é uma tentativa da criança de dar forma a algo que ainda não consegue elaborar internamente.

Quando o ambiente familiar passa por tensões, mesmo que os pais tentem proteger a criança, ela percebe mudanças no clima emocional, nos olhares, nos silêncios, na impaciência ou na disponibilidade afetiva dos adultos.

A criança pequena não entende a causa, mas sente o efeito. O comportamento passa a ser a sua linguagem.

Por isso, perguntas como “Por que ele está fazendo isso?” podem ser substituídas por uma escuta mais cuidadosa: o que essa criança está tentando comunicar?

A função dos pais: sustentar emocionalmente

Na psicanálise, os pais não são vistos como responsáveis por controlar a criança, mas por sustentar emocionalmente seu desenvolvimento. Isso significa oferecer um ambiente em que a criança possa existir, sentir e se expressar com segurança.

Algumas atitudes importantes nesse processo envolvem manter rotinas previsíveis, mesmo em momentos difíceis, nomear emoções de forma simples, como “parece que você ficou bravo”, evitar rótulos como “manhoso” ou “difícil” e não exigir que a criança explique aquilo que ainda não consegue compreender.

A criança não precisa de pais perfeitos, mas de adultos emocionalmente disponíveis e suficientemente estáveis.

Quando o silêncio dos adultos também comunica

Um aspecto importante, e muitas vezes ignorado, é que o silêncio dos adultos também comunica. Quando algo difícil acontece e ninguém fala sobre isso, a criança percebe que existe algo confuso, proibido ou assustador no ambiente.

Mesmo sem entrar em detalhes, pequenas explicações ajudam a organizar o mundo interno da criança. Frases simples, como “estamos passando por um momento difícil, mas os adultos estão cuidando disso”, ajudam a protegê-la de fantasias que podem ser mais angustiantes do que a própria realidade.

Quando buscar ajuda profissional

Alguns sinais indicam que pode ser importante procurar um psicólogo infantil, como sintomas que persistem por várias semanas, sofrimento intenso da criança, prejuízo significativo na escola ou nas relações e pais muito angustiados ou inseguros sobre como lidar com a situação.

A psicoterapia infantil, dentro da abordagem psicanalítica, oferece à criança um espaço para brincar, simbolizar e elaborar seus conflitos, além de orientar os pais sobre o manejo emocional no cotidiano.

Considerações finais

Compreender que a criança pequena se comunica pelo comportamento muda profundamente a forma como os pais lidam com as dificuldades do dia a dia. Em vez de apenas corrigir, torna-se possível escutar, acolher e sustentar.

Cuidar da saúde mental infantil começa pela escuta atenta e pelo reconhecimento de que toda criança precisa de um adulto que a ajude a dar sentido ao que sente.

Referência Teórica

Este artigo é fundamentado na psicanálise, com base principalmente em Donald Winnicott, especialmente nos conceitos de holding, ambiente suficientemente bom e desenvolvimento emocional, em Sigmund Freud, nas bases do funcionamento psíquico, e em Melanie Klein, na compreensão das angústias e fantasias infantis precoces.


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