Mãe tem de ser ‘‘bruxa’’, diz psicanalista

19.maio.2014

Uma criança se joga no chão do supermercado, grita, esperneia e exige que os pais, inertes, comprem o desejado produto. Pouco comum há algumas décadas, a cena é quase rotineira nos dias atuais. Há quem jogue a responsabilidade pela falta de limites dos filhos na figura do pai, que perdeu o poder nas novas configurações familiares. Outros garantem que o ingresso da mãe no mercado de trabalho gerou uma culpa que se tenta corrigir com a permissividade.

No livro Déspotas Mirins: o poder nas novas famílias (Zagodoni Editora, 2012, 144 páginas, R$ 34), a psicanalista e pesquisadora Marcia Neder afirma que a criança perdeu o limite quando o responsável deixou de se posicionar como o adulto da relação. “Antes, o pai queria ser obedecido e respeitado. Hoje, o adulto quer ser amado e aprovado”, diz.

No livro, a psicanalista trabalhou na educação voltada para outra instituição que se encarrega dela, que é a família. No século 21, embora permaneça o que a gente chama de tradicional, ou patriarcal, vemos muitas outras configurações familiares, inclusive, regulamentadas pela Justiça. As famílias homoafetivas, monoparentais, entre outras.

De acordo com Neder, ocorreu um fenômeno chamado despatriarcalização da família ao longo do século 20. Colegas, a mídia e a nossa cultura resolveram dizer que o século 20 acabou com o poder do pai. É possível ler as matérias que são unânimes: a criança está sem limite pelo enfraquecimento da função paterna. Há quem afirme: porque quem tem poder é a mãe. As mulheres têm o poder e, como elas começaram a trabalhar fora, ficam culpadas.

Quando chegam em casa, concedem tudo, e está criada a criança sem limites. A psicanalista discorda deste pensamento. “O pai perdeu o poder, mas a mãe não ganhou o poder. Quem ganhou o poder foi a criança. Nossa cultura deslocou o poder, o que culminou no que eu chamo de déspota mirim. Uma cultura centrada na criança”, explica.

A pedocracia (neologismo que significa governo da criança) é dado pelos adultos, mas tem outra coisa determinante, que a psicanalista define como “o feminino e o poder nas novas famílias”. Até o século 17, na Europa, as crianças eram amamentadas pelas amas de leite e só voltavam para a casa dos pais com cinco ou sete anos.

A partir dos séculos 18 e 19 começa uma campanha para a mãe amamentar. A obrigação da mãe começou a se estender cada vez mais, ao longo de dois séculos, até que hoje ela precisa saber nutricionismo, girar a vida em torno dos horários do filho, ser responsável pela saúde mental. Com isso, você cria uma escrava. Cria um ser adulto disponível 24 horas por dia para uma criança.

Mas o limite deve ser estabelecido por quem educa a criança. Tem famílias em que os pais assumem todos os cuidados. “Educação não é adaptar a criança à sociedade, não é reprimir, não é botar limite. É incluí-la em uma cultura que está pronta, uma cultura de adultos. É sensibilizar a criança, seduzir, como digo no meu primeiro livro”.

Os pais hoje buscam ser amados pelo filho. Antes, o pai queria ser obedecido e respeitado. Hoje, o adulto quer ser amado e aprovado. Isso é um resultado de todas essas mudanças na família, nós passamos a cultuar a criança como se fosse um deus.

“Temos o culto à infância. A criança é nosso ídolo”. Cultuamos tanto a criança que legislamos cada vez mais em tirar poder dos adultos.

O livro é resultado de muito estudo e muita prática da autora. “Tenho uma máxima ótima: não há criança no mundo que veja firmeza nos adultos que estão em volta e vá romper essa barreira. Criança não dá show sem plateia”.

Por exemplo: supermercado, hora que a família está visitando, é aí que vem o show. Se você está sozinho com a criança, ela olha feio, você diz “não faz”, ela vai para cima de você, você segura mão, pé, enfrenta fisicamente e acabou. E você faz uma vez, outra vez, e começa a estabelecer desde cedo as bases de que “quem manda sou eu”.

Com isso, você cria uma relação de respeito. “Se criar medo também está bom, não tem problema. O medo é muito bem vindo, te protege. É fundamental”, comenta.

O pai não precisa ter medo de criar trauma de dizer não, pelo contrário. Vai criar trauma se não disser não. Tenho visto muitos jovens tristes, insatisfeitos, deprimidos, porque olham para trás e falam “O que realizei? Nada. Eu poderia fazer tudo, mas meu pai e minha mãe não me botaram limites”. Mãe tem que ser bruxa, eu tenho que ensinar o que você não gosta de fazer.

Fonte: Gazeta do Povo


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